Em Julho fomos um UNDERDOG!
Quando o capítulo de Edimburgo escolheu o tema “Underdog” para explorar no mês de julho, a nossa escolha para convidado e orador recaiu imediatamente no Miguel Januário.

Enquanto artista urbano,
com percurso iniciado no graffiti, e criador de uma arte visual
contemporânea habitualmente subestimada, Miguel Januário considera-se um underdog,
embora a comparação se esgote aí. Retirando de imediato a conotação negativa à
palavra, Miguel Januário explicou-nos que um underdog pode ser também um
agente subversivo, alguém que, por estar na obscuridade, tem total liberdade
para nutrir a sua capacidade de criar com o olhar crítico que a observação na
penumbra lhe permite. Embora um underdog se defina como alguém subvalorizado,
entregue aos seus próprios recursos para conseguir progredir e singrar contra
todas as probabilidades, pode, nesse contexto, ser também um agente catalisador
de reflexão e de crítica sobre os posicionamentos, também eles ambíguos e
difíceis de definir, que a própria sociedade encerra.

Foi esta a ideia que dinamizou
a nossa conversa no acolhedor e singular espaço da abcoffee onde parte da equipa das CreativeMornings Porto
se reuniu, revigorada pela proximidade de afetos que o desconfinamento lhe permitiu
e pelo café da Senzu Coffee Roasters e o sempre aprimorado e delicioso pequeno-almoço d’ O Piquenique.



É com o aproximar do final
do curso de Design de Comunicação, da Faculdade de Belas Artes da Universidade
do Porto, que Miguel Januário começa a questionar o seu papel enquanto designer
ao serviço de uma indústria de marketing e publicidade onde o trabalho é frequentemente
direcionado para embelezar, enganar e esconder a realidade em prol do consumo. Em
2005, fruto dessas questões, surge o ±MaisMenos±, um projeto artístico de
intervenção que pretendia refletir sobre a questão do design ao serviço
das marcas e refém de uma sociedade de mercado.

Recorrendo à linguagem da publicidade, tão enraizada no subconsciente coletivo e por isso mesmo facilmente identificável por parte do público e através da criação de uma identidade-logotipo, o projeto ±MaisMenos± usa truques publicitários para invadir a rua com frases críticas, assertivas, diretas e ilustradoras de uma sociedade especulativa e gentrificada, que se vai anulando de forma distópica e dividindo entre os que têm e os que não têm.

Miguel Januário aproveitou o tema subjacente à conversa para realçar ainda que o projeto, à semelhança da sociedade que critica, é também um paradoxo: embora se apresente como anti-marca, utiliza ferramentas do sistema para o criticar e embora se proponha como elemento crítico encontramos nele traços de uma certa domesticação enquanto objeto de entretenimento e consumo: “O que é antissistema está por vezes dentro do próprio sistema”, realçou em jeito de conclusão.
Relembrando vários episódios do seu percurso criativo, o nosso orador de Julho salientou ainda, com sentido de humor e ironia, o confronto sempre presente com a autoridade e o poder, numa conversa que podes ouvir, na íntegra, através do nosso já habitual podcast mensal no Spotify ou Mixcloud.

A equipa das CreativeMornings Porto está de malas aviadas e pronta para ir para fora cá dentro, dando assim início a umas férias de 15 dias. Estaremos de regresso dia 17 de agosto, cheios de saudades e prontos para começar um novo calendário de temas e conversas criativas. A próxima está marcada para dia 28 de agosto com a designer de moda Katty Xiomara que nos vai falar de Stress, um tema inteiramente adequado a quem volta em modo zen e a necessitar de ferramentas motivadoras e inspiradoras para prolongar esse estado de espírito durante o regresso ao trabalho.


Até lá deixamos-te aqui a lista das próximas FieldTrips.
Texto: Mónica Leal
Fotografia: Filipe Brandão
Podcast: Liliana Gonçalves